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"Amor, Sublime Amor": Spielberg renova clássico e prova que musical segue atual | #CineBuzzIndica

Ansel Elgort e Rachel Zegler retratam romance épico de Tony e Maria

Camila Gomes | @camilagms Publicado em 07/12/2021, às 10h18 - Atualizado em 09/12/2021, às 11h30

Ansel Elgort e Rachel Zegler são Tony e María na nova versão de "Amor, Sublime Amor" - (Divulgação/Warner Bros.)
Ansel Elgort e Rachel Zegler são Tony e María na nova versão de "Amor, Sublime Amor" - (Divulgação/Warner Bros.)

Adaptar um dos musicais mais famosos da história do cinema, seria uma tarefa difícil para muitos cineastas experientes, mas nas mãos de Steven Spielberg, “Amor, Sublime Amor” vira ouro e corrige os erros da versão passada, que pecou em seu aspecto principal: representar o povo latino!

O longa teve como inspiração a trama musical de 1957 e no longa-metragem de 1961, comandado por Robert Wise e Jerome Robbins. Situada na Nova York dos anos 1950, a história mostra como a rixa de duas gangues locais, os Jets (grupo de homens brancos norte-americanos) e os Sharks (imigrantes latinos), uniu o destino de dois jovens inocentes e apaixonados, que terão que enfrentar obstáculos para ficarem juntos em meio a uma luta por princípios maiores do que eles.

A primeira versão caiu em uma grande controvérsia com sua própria história: a maior parte do elenco que interpretou o grupo latino era composto por artistas brancos. Apesar disso, o filme se consagrou como um clássico absoluto e ganhou dez estatuetas do Oscar.

A versão de 2021 levou a sério a missão de retratar os conflitos raciais, que são muito maiores do que os embates territoriais das gangues. Os Jets são retratados como os “ratos de ruas”, vivem sujos, se esgueirando pelos becos da cidade, mas se sentem os reis do mundo por serem homens caucasianos. Do outro lado temos os Sharks, dessa vez retratados por artistas com descendências latinas e que não cairam no mesmo erro de “Em Um Bairro de Nova York'', incluindo afro-latinos.

A personalidade do filme está em seu visual impecável. O longa abre apresentando os grupos e como os líderes Riff (Mike Faist) e Bernardo (David Alvarez) tem influência em seus lados da cidade, o que fica ainda mais explícito através da fotografia, transitando entre os tons frios nas cenas focadas nos Jets para quentes estreladas pelos Sharks.

O conflito entre os grupos vai muito além da disputa territorial e o roteiro enfatiza como o discurso de Riff, que infelizmente é popular até hoje, de que imigrantes estão ocupando locais e empregos que “deveriam ser dos americanos”. Bernardo, por sua vez, espalha a bandeira de Porto Rico pelo bairro com a frase “esse é o nosso lugar” e luta para manter a vida com mais oportunidades e liberdades que conquistou nos Estados Unidos ao lado da família, inspirando sua comunidade a não ceder às ameaças.

A polícia também tem um papel importante na história. Eles sempre aparecem para apaziguar as confusões, tentando evitar que os conflitos acabem com mortes, mas estão sempre passando a mão na cabeça dos Jets, como se eles fossem apenas crianças mimadas que derão orgulho para a família por defenderem "as tradições" do país, enquanto os Sharks são tratados como baderneiros.

Além do visual charmoso criado pela equipe técnica e coreografias grandiosas, a história de amor e vingança, inspirada no romance épico de "Romeu e Julieta", de William Shakespeare, encanta, mesmo que a química entre Rachel Zegler e Ansel Elgort deixe a desejar em algumas cenas. Apesar disso, a dupla compensa com sua conexão durante as performances musicais e o vocal de Zegler é de arrepiar, chegando a ofuscar Elgort durante os duetos.

O trabalho dos atores coadjuvantes também se destaca, afinal 2 horas e 30 minutos dá tempo o suficiente para desenvolver bem cada um deles. Faist e Alvarez brilham como líderes dos Jets e Sharks, mas quando Ariana DeBose entra em cena com Rita Moreno (que viveu Anita na primeira versão do longa e agora retorna como Valentina) os holofotes viram completamente para a dupla. As duas só contracenam por um momento, talvez na sequência mais potente de todo o filme, deixando explícito as mudanças que Spielberg fez na história, tornando-as ainda mais poderosas.

Sessenta anos se passaram, muitas mudanças positivas aconteceram, mas quando visitamos e notamos que nossa realidade ainda é muito parecida com a Nova York da década de 1950 retratada na história, vemos que ainda há muito para progredir, mas Spielberg enfatiza no musical que estamos no caminho certo.