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"Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente" é animação inventiva que mistura ficção e documentário | #CineBuzzIndica

Premiada no Festival de Annecy, animação em stopmotion mergulha na mente do cartunista Angeli

ANGELO CORDEIRO | @ANGELOCINEFILO Publicado em 10/11/2021, às 13h55

"Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente" é animação inventiva que mistura ficção e documentário | #CineBuzzIndica - Divulgação/Vitrine Filmes
"Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente" é animação inventiva que mistura ficção e documentário | #CineBuzzIndica - Divulgação/Vitrine Filmes

Tem que ser original, e aí é que tá o problema pra mim”, diz a voz do cartunista Angeli logo no início de “Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente”, animação dirigida por Cesar Cabral inspirada na obra do artista. É uma fala que contrasta ironicamente com o estilo do filme, uma animação toda em stop motion que mistura o tom documental dos relatos de Angeli com a ficção vivida pelos personagens de suas charges.

É prazeroso assistir a uma obra tão inventiva e original como “Bob Cuspe”, pois a animação não é um estilo muito difundido no Brasil, apesar de nos últimos anos algumas terem sido premiadas internacionalmente. A exemplo de “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu, indicada ao Oscar de Melhor Animação, e de "Uma História de Amor e Fúria”, de Luiz Bolognesi, ambas vencedoras do prêmio principal no Festival de Annecy, onde “Bob Cuspe” também foi agraciado com o Prêmio Contrechamp.

O estilo híbrido de “Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente” pode parecer novidade a grande parte do público brasileiro, no entanto, o cinéfilo que acompanha os festivais e outras produções que não chegam ao mainstream deverá se lembrar de “Valsa com Bashir”, de 2008, o documentário animado que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro representando Israel, e até de “Flee”, documentário dinamarquês mais recente, exibido no festival “É Tudo Verdade” que tem grandes chances de pintar no Oscar 2022.

Contando com toda essa inventividade em seu estilo, “Bob Cuspe” também transcende seu formato de maneira ainda mais criativa, colocando o próprio Angeli dentro da história como o entrevistado pela equipe responsável pela produção da animação e fazendo com que os seus áudios deem vida - ou melhor, voz - ao seu boneco, que repete muitos de seus trejeitos e reclamações. 

Ao mesmo tempo, o diretor Cesar Cabral humaniza o boneco enquanto brinca com a câmera ao aplicar a técnica do documentário acidental, buscando os personagens em cena ao compasso que eles confessam curiosidades geralmente muito espontâneas: “Eu não gosto que mexam", diz o boneco de Angeli, ao flagrar uma mão curiosa fuçando em seus guardados. Suas caixas são como memórias, mais íntimo impossível.

Essa espontaneidade ácida fez parte de toda a trajetória artística de Angeli, e muito dela se reflete em Bob Cuspe, um punk resmungão e mal encarado que é dublado pelo ator Milhem Cortaz (“Tropa de Elite”). Na parte documental da história, Angeli confessa estar em crise, “essa crise pode dar um fruto legal”, e a partir dessa fala, somos transportados para o deserto da memória do criador, um esgoto habitado pelos irmãos Kowalski (voz de Paulo Miklos) que tentam contatar seu criador a todo custo, mas as tentativas são em vão.

Isolados em um cenário pós-apocalíptico, fruto da já citada crise de criatividade de Angeli, os gêmeos Kowalski ainda têm a companhia nada agradável de mini Elton Johns raivosos - os monstros do pop que contrastam com a rebeldia punk de Bob Cuspe -, até que surge a figura de Bob Cuspe quem, nas palavras do próprio Angeli, foi o personagem que o fez incluir sua vida nos quadrinhos: “Eu sou o Bob Cuspe, mas tenho uma ética, eu nunca seria um punk raivoso”.

Com a entrada de Bob Cuspe na história, novamente a animação ganha nova camada de originalidade ao transmutar entre o formato híbrido da ficção e do documentário, então, a realidade das charges de Angeli chega ao universo surrealista habitado pelos irmãos Kowalski como profecia, onde Bob Cuspe é tido como uma lenda. No entanto, até as lendas de Angeli podem ter um fim. “Eu sou bom de matar personagem”, confessa ele ao ser questionado sobre a morte de Rê Bordosa, clássica personagem da revista Chiclete com Banana. Ao perceber que a morte também lhe pode ser iminente, Bob Cuspe decide ir atrás do criador para um acerto de contas.

Tais vozes e memórias do passado passam a ecoar na mente do artista, é quando a ficção começa a ultrapassar a fronteira da realidade e Angeli se vê cercado de sua própria criação e dos fantasmas que habitam seu subconsciente. "Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente" vai aos poucos revelando como o cartunista refletia sua vida, suas frustrações e seus vícios em seus personagens. O “acerto de contas" com eles surge por meio de uma viagem psicodélica que nos leva ao fatídico encontro entre criador e criaturas, mostrando que “punk is not dead”.