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"Cidade Perdida" resgata espírito de aventura dos anos 80 na base do humor | #CineBuzzIndica

Sandra Bullock e Channing Tatum comandam a aventura que tem ainda Brad Pitt em participação hilária

ANGELO CORDEIRO | @ANGELOCINEFILO Publicado em 20/04/2022, às 17h45 - Atualizado em 21/04/2022, às 17h45

"Cidade Perdida" resgata espírito de aventura dos anos 80 na base do humor - Divulgação/Paramount Pictures
"Cidade Perdida" resgata espírito de aventura dos anos 80 na base do humor - Divulgação/Paramount Pictures

Hoje em dia, o termo cultura pop faz parte do dia a dia de todos aqueles que consomem filmes, séries, quadrinhos e afins, e uma das décadas mais responsáveis por nos municiar com produções que alcançaram o status de pop foi os anos 80. A nostalgia do período é tão estimulante que, mesmo tanto tempo depois, produções como "Stranger Things" ainda se utilizam de seu apelo para cativar a audiência. E dá certo! Os anos 80 foram responsáveis por diversas aventuras, fantasias e ficções científicas que fizeram dos "anos perdidos" um marco para os nerds e geeks do mundo todo.

Foi em obras como "Os Caçadores da Arca Perdida", "Star Wars", "De Volta para o Futuro", entre várias outras, que os sobreviventes daqueles anos se refugiaram em aventuras dosadas com muito humor, mocinhas indefesas, heróis valentes, vilões implacáveis e qualquer outro elemento extasiante, a fim de se esquecerem - nem que fosse por breves horas - da dificuldade financeira que assolava o mundo naquele período.

Citando outro ícone da cultura pop, "o mundo não é mais o mesmo", e em pleno 2022, voltamos a sofrer com ameaças outrora inimagináveis, como uma guerra estapafúrdia entre Rússia e Ucrânia, enquanto ainda nos recuperaramos de uma pandemia traumatizante e sem precedentes. Por isso, um filme como "Cidade Perdida", completamente descompromissado e desconexo da nossa realidade caótica, cai como uma luva em tempos tão conturbados.

Na história, Sandra Bullock interpreta a escritora Loretta Sage, uma autora de romances populares de aventura em lugares exóticos cujas capas são estampadas pelo modelo Alan, vivido por Channing Tatum. Durante a turnê de promoção de seu novo livro, Loretta é sequestrada pelo excêntrico bilionário Abigail Fairfax (Daniel Radcliffe). O plano do vilão é tão absurdo quanto acreditar que o baixinho Harry Potter seria ameaçador: Loretta deve servir de tradutora e guia rumo ao tesouro da cidade perdida que ela descreve em seu livro.

A premissa de "Cidade Perdida", filme dirigido pelos irmãos Adam e Aaron Nee, a partir de um roteiro escrito pela própria dupla e por mais algumas mãos - além deles, assinam o roteiro o trio Dana Fox, Seth Gordon e Oren Uziel -, é bastante semelhante à de outro filme dos anos 80: "Tudo por uma Esmeralda", aventura capitaneada por Kathleen Turner e Michael Douglas, ela fazendo uma escritora de sucesso e ele um canastrão que fala demais, que vão à selva colombiana em busca de um mapa do tesouro. 

O sucesso do longa foi tanto que Turner e Douglas retornaram em uma sequência no ano seguinte, em 1985, intitulada "A Jóia do Nilo", mas sem Robert Zemeckis na direção. E não duvide que o mesmo aconteça com Sandra Bullock e Channing Tatum, afinal, a dupla esbanja carisma e ainda têm o suporte de um roteiro muito bem escrito que permite a eles defenderem seus papéis como se realmente fossem personagens de um romance aventuresco, com boas doses de humor, malícia e falas exageradas que nos tiram boas gargalhadas. É como se eles estivessem cientes de que estão envolvidos em algo absurdo e, mesmo assim, devem seguir em frente e escrever a sua própria história.

A cena de abertura de "Cidade Perdida" questiona e ridiculariza alguns dos lugares-comuns em filmes do tipo, como as ameaças que surgem do nada e colocam os mocinhos em perigo, os vilões que nunca são atacados pelas próprias ameaças por eles planejadas, e personagens com uma autoconsciência de que funcionam bem à proposta da narrativa. Os próprios personagens vividos por Daniel Radcliffe e Brad Pitt são casos claros da personificação dessa ridicularização. Enquanto Radcliffe é o vilão cheio de excessos que acredita piamente em seu plano, Pitt é o herói perfeito que parece ter saído diretamente dos livros de Loretta.

Se por um lado "Cidade Perdida" zomba dessas perfeições, por outro, o filme também possui seus excessos, como a subtrama da personagem Beth (Da’Vine Joy Randolph), que esfria o ritmo do filme em alguns momentos, além de certas piadas e passagens cômicas que se prolongam demais e acabam perdendo o timing - como a sequência de nudez com Tatum - e ainda uma tentativa sem apelo de emocionar com o background da personagem de Bullock que poderia ser evitada. O sério e o emocional não casam bem com a proposta do filme. Ao subverter e ridicularizar chavões das aventuras oitentistas é que "Cidade Perdida" vira puro deleite.

Em suma, em tempos nos quais "Batman" foi criticado por alguns por ser um filme denso e frio demais para a atual realidade do mundo, "Cidade Perdida" é a pedida perfeita para aqueles que querem se refugiar por quase duas horas em uma sessão digna das aventuras dos anos 80, cheia de exageros, vilões caricatos e mocinhos improváveis em tramas que só mesmo na nossa imaginação, ou na de autores criativos, poderiam funcionar. Se não revoluciona o gênero ou entra para os anais da cultura pop, ao menos, nos distrai. Ora, e não estamos precisando disso mesmo? 


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