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Com "Maligno", James Wan recicla o terror e volta às origens | Crítica

Filme do criador de "Invocação do Mal" e "Jogos Mortais" estreia nesta quinta (09) nos cinemas

ANGELO CORDEIRO | @ANGELOCINEFILO Publicado em 09/09/2021, às 17h21

Com "Maligno", James Wan recicla o terror e volta às origens - Warner Bros.
Com "Maligno", James Wan recicla o terror e volta às origens - Warner Bros.

Quando falamos em terror, James Wan é um dos nomes mais famosos e bem estabelecidos da atualidade em Hollywood, afinal, sua mente foi responsável por três das franquias mais celebradas dos últimos anos: “Jogos Mortais”, “Sobrenatural” e “Invocação do Mal”. Além disso, Wan alcançou um patamar de confiabilidade que o deixou responsável por filmes como “Aquaman” e “Velozes & Furiosos 7”.

Ao olhar para o futuro, seria fácil para James Wan se manter envolvido com blockbusters que rendem milhões em bilheteria enquanto somente assina como produtor das sequências infindáveis e dos derivados genéricos que suas franquias de terror se transformaram. No entanto, ele sempre foi um visionário dentro do gênero.

Enquanto seu “Jogos Mortais” estabeleceu um novo vilão para o horror, a franquia “Invocação do Mal” provou como a indústria cinematográfica está a fim de arrecadar em cima de derivados que, cada vez mais, se distanciam do produto original. Ou seja, o próprio nome de James Wan, outrora sinônimo de qualidade, hoje em dia não é mais garantia de originalidade. Também virou produto.

Por isso, não é de se espantar que James Wan volte às origens em seu novo filme “Maligno”, o qual carrega o slogan “uma nova visão de terror”. É como se o diretor mostrasse ao mundo que está cansado das convenções de gênero que ele próprio ajudou a estabelecer nos últimos anos e, agora, decidiu arrancar de suas entranhas o terror mais puro que fez seu nome se tornar tão famoso e respeitado.

Na história de “Maligno”, Madison (Annabelle Wallis de “Annabelle”) está grávida e vive em um relacionamento abusivo com o marido. Após uma tragédia, Madison passa a sofrer com pesadelos que se assemelham à paralisia do sono. Enquanto está paralisada, ela testemunha assassinatos cometidos por uma figura misteriosa que carrega um punhal. Tudo piora quando Madison descobre que suas visões estão realmente acontecendo.

Se James Wan retorna às suas origens para realizar “Maligno”, vai ficando claro, conforme a trama se desenrola, como ele também retorna alguns anos no terror para sustentar sua história. As homenagens ao giallo, corrente do terror italiano muito popular nos anos 70, graças a nomes como Dario Argento, Lucio Fulci e Mario Bava, ficam evidentes não só na estética, mas também quando a história fantasiosa do assassino ganha a atenção da polícia.

A investigação criminal - outro elemento típico e essencial dos gialli - apresenta tons cômicos típicos de quem está se divertindo com sua proposta. James Wan não abre mão do bom-humor - ao qual o cinema sul-coreano de horror e o cineasta Jordan Peele ("Corra!") também se agarram com afinco - para contar uma história assustadora. A aposta é ousada, embora, para alguns, humor e terror não se misturem.

Somos instigados, assim como a protagonista Madison, a tentar desvendar o que está acontecendo: seria tudo alucinação da personagem? Seria mesmo algo sobrenatural? Qual a ligação da história de Madison com a sequência de abertura? As dúvidas seriam ainda mais saborosas se os diálogos não entregassem tanto, ainda assim, é divertido acompanhar como James Wan está disposto a nos testar.

Se “Maligno” escorrega por ser didático demais - algo que Hollywood parece não abandonar nunca - o longa acerta com louvor quando nos mostra porque James Wan é um dos diretores mais criativos e arrojados do gênero. A violência e o impacto dos assassinatos fazem valer a alta classificação indicativa; a forma com que sua câmera passeia pelos cenários, cômodos e caminhos subterrâneos evidenciam uma tensão de origem imprevisível.

No terço final, James Wan abraça uma loucura sanguinária, com referências ao body horror de David Cronenberg, e sequências coreografadas como há muito tempo o terror maisntream não apresentava - embora seu pupilo Leigh Whannell (roteirista de "Jogos Mortais" e "Sobrenatural" e diretor de "O Homem Invisível") já tenha experimentado arrojo semelhante no thriller de ficção científica “Upgrade”.

É louvável que um diretor como James Wan, que está no comando de uma sequência de filme de super-herói, seja capaz de mostrar ao mundo que é possível realizar um filme sem filtros de estúdio. Talvez, o último que tenha conseguido algo semelhante foi Sam Raimi, com suas origens ligadas ao terror, na franquia “Evil Dead”, responsável pela trilogia do “Homem-Aranha”, e que ainda realizou o terrir “Arraste-me para o Inferno” quando já não precisava provar mais nada a ninguém.

Em suma, “Maligno” é um novo cartão de visitas de James Wan. Esqueça o idealizador de “Invocação do Mal”, “Jogos Mortais” e “Sobrenatural”. O cineasta que foi ao fundo do mar com “Aquaman” e acelerou com “Velozes & Furiosos”, apresenta sua nova visão do terror sem precisar se preocupar com convenções de gênero, de estúdio e de público. James Wan as recicla e abraça a loucura para agitar um gênero que, cada vez mais, tem caído na mesmice.