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"Curral" expõe realidade de campanhas eleitorais nos rincões do Brasil | Crítica

Longa do diretor Marcelo Brennand estreia nesta quinta (11) nos cinemas

ANGELO CORDEIRO | @ANGELOCINEFILO Publicado em 11/11/2021, às 13h01

"Curral" expõe realidade de campanhas eleitorais nos rincões do Brasil | Crítica - Divulgação/Zefiro Filmes
"Curral" expõe realidade de campanhas eleitorais nos rincões do Brasil | Crítica - Divulgação/Zefiro Filmes

Se atualmente o apelido jocoso "gado" serve para zombar de um dos lados da polarização que tomou conta do cenário da política brasileira, o termo "curral" servia - ou ainda serve? - para indicar uma região onde a população vota em peso em políticos que exploram o famoso "voto de cabresto", um voto em troca de favores, bens de consumo ou qualquer outro tipo de escambo.

Essa triste realidade ainda é muito presente em locais distantes dos centros urbanos do país, onde a política pública geralmente se faz escassa e só acontece em épocas de eleição por puro interesse dos políticos. É essa a realidade mostrada em "Curral", longa de estreia do diretor Marcelo Brennand que utiliza seu próprio documentário “Porta a Porta – A Política em Dois Tempos”, de 2009, como base para essa denúncia.

Na história, Chico Caixa (Thomás Aquino, de "Deserto Particular") é um ex-funcionário da empresa distribuidora de água da cidade de Gravatá, interior de Pernambuco, local que sofre com a crise hídrica. Ele é recrutado pelo advogado Joel (Rodrigo Garcia, de "Tatuagem"), seu amigo de infância, que precisa conquistar votos em um bairro popular da cidade que será fundamental para conseguir se tornar vereador. 

Para alguns, ver Thomás Aquino em um filme que trata da crise hídrica trará à memória outro filme no qual o ator também se faz presente e que trata dessa mesma crise: “Bacurau”. Enquanto no longa de Kleber Mendonça Filho a água é traficada pelos moradores da cidade, em “Curral”, ela se torna uma moeda de troca nas mãos dos poderosos, representados nas figuras de Joel e Caixa, que ameaçam deixar a população na seca caso Joel não seja eleito.

Se apropriando da mesma narrativa utilizada em seu documentário, Brennand conduz “Curral” denunciando os trâmites daqueles políticos sem escrúpulos envolvidos na compra de votos, no entanto, ao propor isso, Brennand norteia sua narrativa apenas por um caminho, deixando de desenvolver seus personagens ou de explorar outras vertentes de uma pirâmide bastante complexa.

Os coadjuvantes são bastante representativos em “Curral”, principalmente o veterano José Dumont (do clássico "O Homem que Virou Suco"), fazendo uma rápida participação como o prefeito de Gravatá, Vitorino, que busca sua reeleição a qualquer custo. O ator, acostumado a interpretar “homens do povo”, chegou a brincar durante a coletiva de imprensa ao falar que Vitorinofoi o primeiro poderoso rico que eu interpretei na carreira”.

Enquanto Brennand demonstra ter essa sensibilidade na escalação do elenco, não é possível dizer o mesmo do roteiro. As personagens de Clebia Sousa ("O Som ao Redor") e Carla Salle ("Motorrad") surgem como conflitos interessantes ao personagem de Thomás Aquino, no entanto, esposa e amante, respectivamente, vão perdendo em camadas e se tornando apenas combustíveis para o tema político de “Curral”. Essa carência de profundidade nas personagens é um fator limitador que perdura por todo o filme.

Em suma, falta a Brennand propor algo além, evocar algo mais ficcional e dramatúrgico, já que o próprio diretor já havia explorado essa abordagem mais “realista” no documentário “Porta a Porta”, digo isso pois, nos últimos momentos de “Curral”, Brennand vai em busca de certa catarse para seu protagonista Caixa, uma catarse que ao mesmo tempo que soa otimista pode ser vista como decepcionante, afinal, dar-se por vencido diante de um cenário intimidador acaba alçando figuras perigosas ao poder.

Ao final, o que fica de “Curral” é a mensagem de que não há lado santo quando o assunto é o jogo político, principalmente nos rincões do Brasil, e que não há muito que a população e aqueles que têm certo discernimento possam fazer para combater isso. Será verdade? Apesar da dura realidade da ainda jovem - e já viciada - democracia do Brasil, é preciso dar tons de cinza a essa política de preto ou branco, caso contrário, o curral acabará sendo o destino de todos nós.