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“Encarcerados” mostra a rotina nos presídios superlotados pela ótica dos carcereiros | #CineBuzzIndica

Inspirado na obra de Drauzio Varella, o filme propõe reflexão sobre o sistema penitenciário brasileiro

Camila Gomes | @camilagms Publicado em 19/08/2021, às 12h15 - Atualizado em 26/08/2021, às 10h16

"Encarcerados" acompanha rotina dos carcereiros nos presídios de São Paulo - Divulgação
"Encarcerados" acompanha rotina dos carcereiros nos presídios de São Paulo - Divulgação

Imagine testemunhar situações de extrema violência, ter sua integridade física ameaçada, enquanto enfrenta a falta de segurança, estrutura, a corrupção em seu local de trabalho e, às vezes, encerrar sua jornada após se tornar refém de criminosos. Esse é o dia a dia de alguns dos carcereiros das penitenciárias do Brasil, que infelizmente já testemunharam momentos trágicos da história do país, como o massacre do Carandiru, em 1992, em que 111 presos foram executados pela polícia paulista.

Com o intuito de jogar luz sobre a rotina arriscada desses profissionais, que ainda é pouco conhecida por grande parte da população, “Encarcerados” chega aos cinemas também para desmistificar a visão hollywoodiana de como é trabalhar no sistema carcerário brasileiro e mostrar algumas das dificuldades enfrentadas por eles.

Gravado em oito penitenciárias de São Paulo, o filme mostra a rotina das pessoas que trabalham como carcereiros, que observam atentamente e diariamente os elos entre o Estado e o crime, dentro e fora dos presídios. O longa chega como a parte final de uma franquia baseada na obra “Carcereiros”, lançada em 2012 pelo médico Drauzio Varella. A história inspirou também a trama da série e do longa ficcional homônimo estrelado por Rodrigo Lombardi.

Agora em formato documental sob as lentes dos diretores Pedro BialClaudia Calabi Fernando Grostein, a produção propõe uma nova reflexão sobre o sistema penitenciário brasileiro, desta vez através sob a ótica de quem já passou por situações de terror convivendo entre os presos. Apesar de chegar quase três anos após o início do projeto, Bial garante que o produto não perdeu o caráter atual e de urgência, e garante que a realidade exposta “não só não permanece igual, mas ela se agravou”.

“Acho importante a gente mostrar o drama dos agentes penitenciários porque mostra como não funciona o sistema atual. É um sistema que enxuga gelo tentando erradicar as drogas pela via da oferta, ao invés de erradicar pela via da demanda. O que significa um sistema prisional lotado, que prende mais que sua capacidade de prender. E ao prender mais do que sua capacidade, ele deixa de reabilitar e isso é uma coisa fundamental. Está se criando uma bomba relógio”, afirma Grostein.

Segundo dados obtidos pela Folha de S. Paulo, são hoje 216 mil pessoas distribuídas por 176 unidades do estado. São nas celas superlotadas, onde habita uma significativa parcela dos habitante que a sociedade optou por ignorar.

“Eu acredito na tese de que jogar luz nos cantos escuros da sociedade é importante. A informação e o conhecimento libertam”, prossegue Fernando. “Acho importante mostrar o dia a dia dos agentes penitenciários, assim como o dia a dia dos detentos para as pessoas entenderem o que se passa dentro do presídio. Hoje em dia a gente está vivendo um momento no Brasil que é muito comum as pessoas falarem assim, ‘tem que prender e arrebentar’, mas não param para refletir o que isso significa. A cadeia não é feita apenas para punição, é feita para habilitar. A conta não fecha. O estado tem que gastar mais em educação, do que em detenção.”

Para retratar as histórias, é necessário também entender o contexto em que ela está inserida, isto é, como o massacre dos 111 presos no Carandiru influenciou e deu força para que o crime organizado comandasse os presídios do país. A produção resgata memórias do dia que marcou a história do Brasil, reunindo relatos de quem vivenciou a tragédia ao lado dos detentos no dia 2 de outubro de 1992.

Para conseguir os depoimentos destes carcereiros e de suas famílias, bem como com ex-detentos, que ainda vivem com medo de sofrerem represálias das facções criminosas, foi necessário tempo e transparência para ganhar a confiança de cada um deles. “Eles são funcionários públicos que passam o tempo todo preocupados com o que vão dizer”, conta Drauzio. “Tinha sempre esse respeito de dizer o que você está disposto a falar, em que contexto, você só vai se expor se estiver se sentindo à vontade e isso foi indo ao longo do processo. E também com os detentos pra gente poder estar dentro dos raios e tudo. Tinham lideranças com as quais a gente falava ou avisava quando ia abrir câmeras e quem não quisesse aparecer tinha que ir para outra área ou o comprometimento de botar blur no rosto de todo mundo. Então é empenhar a palavra, que vale muito naquele universo e a gente foi muito cuidadoso com isso“, acrescenta Claudia.

Ao mesmo tempo, o documentário faz também um recorte de gênero necessário que enfatiza as diferenças entre as realidades dos detentos do presídio masculino e feminino, especialmente das gestantes e mulheres com filhos recém-nascidos. “A prisão da mulher envergonha a família muito mais que a de um homem”, afirma Drauzio. “A mulher vai presa e é esquecida na cadeia”.

“Encarcerados” estreia nesta quinta-feira (26) nos cinemas.