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"Halloween Kills" é continuação violenta que expõe fraquezas da franquia | Crítica

Novo capítulo da franquia de Michael Myers chega aos cinemas nesta quinta (14)

ANGELO CORDEIRO | @ANGELOCINEFILO Publicado em 14/10/2021, às 12h13

"Halloween Kills" é continuação violenta mas deixa evidente o cansaço da franquia | Crítica - Divulgação/Universal Pictures
"Halloween Kills" é continuação violenta mas deixa evidente o cansaço da franquia | Crítica - Divulgação/Universal Pictures

Certa vez, eu fui ao cinema assistir ao projeto “Grindhouse”, uma homenagem às fitas de terror dos anos 70 que consistia na exibição de dois filmes, “Planeta Terror” e “À Prova de Morte”, além de alguns trailers falsos. O que era brincadeira acabou se tornando realidade: um dos trailers exibidos, o de “Machete”, virou filme e ganhou até uma sequência - intitulada “Machete Kills”, lançada em 2013.

Anos depois, na sessão de “Machete Kills”, foi exibido outro trailer falso - pelo menos até agora -, o de “Machete Kills Again… in Space”, e ao assistir “Halloween Kills: O Terror Continua” - projeto que nasceu por acaso - lembrei de alguns lugares onde Jason Voorhees, outro vilão icônico do slasher, já foi parar, como o espaço, na galhofa “Jason X”, quando a franquia "Sexta-Feira 13" buscava ideias para sair da mesmice e acabava abraçando o ridículo.

Eu escrevi tudo isso para dizer que o futuro da franquia “Halloween” - desenterrada em 2018 em um filme que surgiu como uma grata e nostálgica surpresa - parece fadado ao tom de paródia trash. “Halloween Kills: O Terror Continua” é um filme que sequer deveria existir e que samba na onda do entusiasmo dos fãs - e claro, no montante arrecadado pelo filme anterior -, entregando o que eles querem ver: muitas mortes e pouquíssima história. Mas o que se esperar de uma franquia que já não consegue explorar nada além disso?

Dentro dessa pouca história, o que temos é a continuação direta do capítulo anterior: Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) é levada ao hospital, junto de sua filha e neta, para se recuperar dos ferimentos sofridos no embate com Michael Myers no filme predecessor. Enquanto isso, o assassino mascarado escapa da casa em chamas para trilhar um caminho sangrento de vítimas em Haddonfield.

Se tem algo em “Halloween Kills: O Terror Continua” que os fãs vão gostar é o fato deste filme ser um dos mais violentos da franquia, chegando próximo ao nível do remake de 2007, dirigido por Rob Zombie. O fã saudosista defenderá com unhas e dentes - facas não, por favor - tais momentos, afinal, este é um filme de um assassino frio. No entanto, sendo a 9ª sequência da franquia, é só isso o que conseguem fazer? Fica evidente que a maior fraqueza da franquia é ser refém dos assassinatos de Michael Myers. Não há nada conceitualmente novo em “Halloween Kills”, a não ser novos personagens que sequer apareceram ou foram citados no filme de 2018 - um flashback aqui e outro ali forçam justificativas para a existência deles - e isso é um problema. Ora, se este filme é uma sequência e nos apresenta novos personagens, eles poderiam ao menos enriquecer a narrativa. O que não acontece. Eles existem para um único propósito: padecer pelas mãos e pela faca de Michael Myers.

E no meio disso tudo, onde fica Laurie Strode, líder do trio que os materiais de divulgação fizeram tanta questão de tratar como “as três gerações fortes de Strodes”? A Laurie de Jamie Lee Curtis é relegada a uma cama de hospital durante boa parte do filme. A personagem de Judy Greer, tão esperta ao final do antecessor, aqui, cai em um clichê máximo dos slashers: não verifica se o assassino está morto após golpeá-lo. Quem consegue se destacar no meio dessa apatia toda é a Allyson de Andi Matichak, jovem empoderada que decide caçar o algoz de sua avó. No entanto, o filme a sabota e dá ao personagem de Anthony Michael Hall - o nerd Brian de “O Clube dos Cinco”, lembram? - o papel de vingador de Haddonfield.

Mas até que surge algo bom dessas novas caras em “Halloween Kills”, pois, dessa forma, o filme traz à franquia algo que sempre lhe faltou e que “Pânico”, um slasher que revigorou o subgênero, tem: uma cidade com passado amargo devido a uma lenda que a amaldiçoa. O que acaba ficando frouxo no roteiro assinado pelo diretor David Gordon Green em conjunto com Danny McBride e Scott Teems é uma crítica social às pessoas de Haddonfield que, em sua gana de fazer justiça, acabam se tornando os monstros da situação. Na cena seguinte, essa crítica é descartada como qualquer outra vítima de Michael. É como se os roteiristas buscassem incorporar certo discurso à narrativa apenas por fazê-lo. No final das contas, só temos mais um corpo estendido no chão.

Por escolhas banais e aleatórias como essa - fora a escalação do ator tragicômico Jim Cummings, algo que estou tentando entender até agora -, tudo em “Halloween Kills” se revela produto do que a franquia já vem nos provando há décadas: não há muito mais a ser contado sobre Michael Myers. Os criadores John Carpenter e Debra Hill já contaram tudo o que precisávamos saber em 1978.

Ao final, para piorar o que já não vinha tão bem, “Halloween Kills: O Terror Continua” encontra uma das explicações mais estapafúrdias para o poder maligno de seu protagonista mascarado - "Sexta-Feira 13 - Parte 6: Jason Vive" soube justificar a imortalidade de Jason de uma maneira absurdamente crível que fazia sentido dentro do contexto daquele universo. O resultado é o que se espera de uma continuação caça-níquel: um filme feito para os fãs vibrarem a cada facada de Michael Myers. E só.