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"Heartstopper" prova que a nova geração não aceitará migalhas de representatividade | #CineBuzzIndica

Dos quadrinhos para a Netflix, adaptação do romance LGBTQIA+ de Alice Oseman abre portas para novas narrativas teen na plataforma

CAMILA GOMES | @CAMILAGMS Publicado em 20/04/2022, às 16h15 - Atualizado em 22/04/2022, às 11h03

Kit Connor e Joe Locke são os protagonistas de "Heartstopper" - Divulgação/Netflix
Kit Connor e Joe Locke são os protagonistas de "Heartstopper" - Divulgação/Netflix

Nick e Charlie estudam na Truhan, um colégio britânico só para garotos. Enquanto Charlie está no primeiro ano, vive recluso com seu grupo de amigos, Tao e Isaac, e está em um relacionamento secreto com Ben Hope. Nick está no segundo ano, é o capitão do time de rúgbi e querido por todos ao seu redor. Nick e Charlie começam um novo ano letivo sentando lado a lado na aula de matemática. É desta forma que garoto conhece garoto, se aproximam e se apaixonam! Simples assim? Claro que não!

Heartstopper” é a nova série teen da Netflix e promete se destacar de todos os outros títulos da plataforma por apresentar uma história repleta de representatividade ao retratar um romance LGBTQIA+ entre dois adolescentes, que são interpretados por Kit Connor e Joe Locke. A produção adapta os quadrinhos de Alice Oseman, que atua como roteirista dos oito episódios, e é a digital da autora que dá toda a personalidade para a trama.

Algumas adaptações literárias conseguem traduzir para as telonas (e telinhas) uma história com bastante fidelidade, como é o caso de “Para Todos Os Garotos Que Já Amei”. Outras conseguem entregar bons resultados mesmo se distanciando do texto original, tendo como exemplo, a segunda temporada de “Bridgerton”. Por último, tem aquelas que são um desastre total e que muitos até preferem fingir que não existem, como é o caso do fracasso de “Fallen”. O que o diretor Euros Lyn (“Doctor Who”) e Oseman entregam nesta série é algo muito mais raro e especial: traduzir com lealdade um best-seller para o streaming, construindo pontes para algo novo e surpreendente. E o resultado é majestoso.

A produção conta com cenas extremamente fiéis às páginas dos quadrinhos, estética que é inclusive reverenciada durante os capítulos com animações. É quase como se você estivesse abrindo um livro 3D e visse os personagens saltarem das páginas com extrema autenticidade. Os fãs mais fiéis aos quadrinhos podem até se pegar recitando alguns diálogos ao mesmo tempo que os personagens de tal semelhança e cuidado com o texto.

Os episódios têm uma média de 30 minutos cada, tempo o suficiente para explorar a relação de Nick e Charlie de forma doce e inocente. É assim que a narrativa te prende e se torna impossível não se apegar aos personagens. Por mais simples que pareçam os problemas apresentados na trama, você compreende e sente a dor de cada um deles nesta fase de tantos sentimentos novos e tão intensos. Enquanto se apaixonam, os dois enfrentam obstáculos pessoais nessa jornada de autoconhecimento e de primeiros amores.

O Charlie, que já sofreu bullying na escola após ter se assumido gay, sofre com problemas de autoestima e muitas vezes aceita as migalhas de um relacionamento abusivo para continuar com Ben e aceita sofrer calado para não incomodar os amigos e a família. Já Nick, que nunca se sentiu atraído por um garoto antes, vai desvendando sua sexualidade e experimentando os novos sentimentos com Charlie, percebe que chegou em um ponto de sua vida em que precisa sair da zona de conforto para escolher quem deseja ser e quem deve continuar ao seu lado no futuro.

Mas essa não é uma das séries que focam no negativo, nos empecilhos de um casal para ficarem juntos, e se tratando de uma trama focada no relacionamento entre dois garotos, - sobre homofobia. Muito pelo contrário. "Heartstopper" é sobre leveza, naturalidade e afeto. É sobre nervosismo e ansiedade quando trocam mensagens, troca de olhares, primeiros beijos, primeiros encontros, andar de mãos dadas em público, longas conversas, compreensão, aceitação da família e apoio dos amigos.

E aliás, os amigos de Charlie também ganham destaque e tempo para desenvolver seus próprios arcos, diferente das páginas dos quadrinhos, que dependiam dos conteúdos extras para ganharem espaço entre as histórias dos protagonistas. Mesmo sendo personagens secundários, seus dilemas são tratados com seriedade e recebem a atenção necessária.

“Heartstopper” promete se tornar uma boa “confort serie”, perfeita para maratonar sempre que estiver precisando de um abraço e desejando ficar com o coração quentinho. O público deve assistir a série com o olhar atento para easter eggs, com uma caixinha de lenços do lado e com a certeza de que a nova geração não tolera mais migalhas de representatividade. “Heartstopper” celebra a diversidade, as diferentes formas de amar e a liberdade, sem nunca deixar de ser política.


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