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“A Lenda de Candyman” ressignifica clássico do terror ao explorar questões raciais | #CineBuzzIndica

Filme dirigido por Nia DaCosta e escrito por Jordan Peele chega aos cinemas nesta quinta (26)

Angelo Cordeiro | @angelocinefilo Publicado em 26/08/2021, às 12h10 - Atualizado às 13h27

“A Lenda de Candyman” ressignifica clássico do terror ao explorar questões raciais - Universal Pictures
“A Lenda de Candyman” ressignifica clássico do terror ao explorar questões raciais - Universal Pictures

“A Lenda de Candyman” é um filme que nasce clássico. Isso mesmo, leitor. Para alguns, falar isso pode ser uma precipitação da parte deste que vos escreve, afinal, o que define um clássico, em primeira instância, é a capacidade que um filme tem em perpassar os anos e as gerações sendo objeto de estudos e discussões.

Ainda que não se torne um clássico, arrisco dizer que o filme da diretora Nia DaCosta, co-escrito por ela, Win Rosenfeld e Jordan Peele, tem tudo para se tornar um dos mais importantes dos últimos anos, pois é oriundo de uma onda do terror a qual o próprio diretor de “Corra!” ajudou a propagar em Hollywood. “A Lenda de Candyman” é um terror com algo a mais a ser discutido. Um exemplo recente? “O Homem Invisível” e a violência contra a mulher.

Desde as origens do terror, até mesmo antes de “O Gabinete do Doutor Caligari”, de 1920 - considerado por muitos o primeiro grande longa-metragem de terror da história do cinema - o gênero foi responsável por explorar facetas da humanidade que não gostamos de ver reveladas. Ainda, ficamos intrigados ao testemunhar os limites da moral sendo ultrapassados nas telonas porque sabemos que nada daquilo é real, embora essa essência resida perigosamente em algumas pessoas. Justamente o que deixa tudo mais assustador.

Utilizar o terror como um meio para discutir temas delicados, explorar fragilidades humanas, canalizar traumas e expor os tabus e medos do ser-humano fez com que o gênero se tornasse quase “persona non grata” em Hollywood - até hoje, quantos filmes de terror ganharam o Oscar de Melhor Filme? Nos últimos anos, parece que isso vem mudando, justamente pela forma com que temas urgentes (a questão racial, a violência, o protagonismo feminino, etc) têm se tornado inerentes ao gênero.

A Lenda de Candyman” talvez se torne um clássico por tudo isso. É um filme que expõe questões que estão em voga como nunca estiveram antes. Os recentes casos de violência contra negros são uma realidade que a nossa sociedade engole a contragosto. Por isso, nesta continuação/reboot do original de 1992, a diretora Nia DaCosta propõe uma nova perspectiva para a lenda, assim, ressignificando o clássico e fazendo com que o mito do Candyman seja contado e espalhado por aqueles que merecem fazê-lo.

Ora, o próprio clássico ("O Mistério de Candyman") é dirigido e escrito por um diretor branco (Bernard Rose) e protagonizado por uma mulher branca (Virginia Madsen), não que isso afete o filme, de forma alguma, já que Rose é capaz de criar um clima de terror que muitos filmes da atualidade não conseguem alcançar. A problemática está em como “O Mistério de Candyman” pouco se importa com os personagens negros. Fica o desafio: conte quantos deles são assassinados ao longo do filme.

Em “A Lenda de Candyman”, a realidade é outra. Na trama, Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen II de "Aquaman") é um artista plástico que se sente frustrado por ter sua carreira estagnada e ser completamente dependente da namorada Brianna (Teyonah Parris de "WandaVision"), dona da galeria de artes na qual ele expõe. Tudo muda quando Anthony busca inspiração para revolucionar sua arte e descobre a história por trás da lenda de Candyman. Quando uma trágica coincidência coloca sua obra em evidência, Anthony se vê em uma trama que o leva ao limite da loucura. Ou será que a lenda do Candyman é real?

A estratégia de escalar Nia DaCosta para a direção se mostra acertada já nos primeiros minutos de “A Lenda de Candyman”. Por se tratar de um filme de terror, esperamos os sustos fáceis, a trilha sonora alta ou até mesmo alguma sequência gratuitamente chocante. Nia DaCosta recusa todas essas facilidades que desgastaram o gênero e aposta nas sutilezas. Mas, claro, sem abrir mão da violência quando ela é necessária.

E vale destacar que o talento de Nia DaCosta já estava evidente desde sua estreia nos cinemas, no ótimo “Passando dos Limites”, de 2018, drama independente protagonizado por Lily James ("Em Ritmo de Fuga") e Tessa Thompson ("Thor: Ragnarok"). Dessa vez, em uma obra com orçamento maior e roteiro escrito por um vencedor do Oscar, Nia DaCosta mostra que é um nome para se ficar de olho nos próximos anos - principalmente os fãs da Marvel, já que ela será responsável pela sequência de Capitã Marvel, intitulada “The Marvels”. 

A dupla Nia DaCosta e Jordan Peele prova junta que o filme original tinha um potencial que fora pouco aproveitado. Para ambos, o que interessa é colocar os negros no protagonismo de suas próprias histórias. Chega de fazer com que o personagem negro seja o que morre primeiro ou o coadjuvante engraçadinho amigo do protagonista. O roteiro tem ciência de todos os preconceitos e questões que o negro enfrenta em seu dia a dia, desde o policial que tenta fazer da sua versão a versão oficial até a garota negra que sofre bullying no colégio.

O terror que os negros sofreram - e ainda sofrem - com o passar dos séculos ganha atenção até mesmo nos créditos finais - preste atenção neles! - e, dessa forma, “A Lenda de Candyman” pretende resistir ao expor tanta violência que fora cometida injustamente.

Ao final, é difícil não se compadecer com aqueles personagens e um subtexto que se torna prioridade narrativa pelas decisões tomadas por Nia DaCosta e Jordan Peele, juntos eles fazem de “A Lenda de Candyman” um filme que tem tudo para se tornar um ideal de remake: reconte histórias, mas com propósito.