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“Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” ultrapassa os limites em uma viagem caótica pelo multiverso | #CineBuzzIndica

Um dos filmes mais elogiados do ano finalmente chega aos cinemas brasileiros, a partir desta quinta-feira (16)

ANGELO CORDEIRO | @ANGELOCINEFILO Publicado em 15/06/2022, às 11h36 - Atualizado às 11h37

“Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” ultrapassa os limites da razão em uma viagem deliciosamente caótica pelo multiverso - Divulgação/A24/Diamond Films
“Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” ultrapassa os limites da razão em uma viagem deliciosamente caótica pelo multiverso - Divulgação/A24/Diamond Films

Não se espante ao assistir a “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” e achar que reconhece o ator Ke Huy Quan de algum lugar. Caso você seja um pouco mais velho, crescido nos anos 80 ou 90, sua memória não está te pregando uma peça. Após um longo período ausente dos cinemas, Ke Huy Quan, hoje com 50 anos, viveu o Data, em “Os Goonies”, clássico de 1985, e também Short Round, ajudante do personagem de Harrison Ford em “Indiana Jones e o Templo da Perdição”, de 1984.

Sua ausência dos filmes tem um motivo: a falta de oportunidade para atores asiáticos nas grandes produções hollywoodianas. E quando elas apareciam, eram sempre para papéis menores que giravam em torno de sua ascendência asiática. O que o fez voltar? Assistir a “Podres de Rico”, comédia romântica com elenco composto majoritariamente de atores chineses. Quan percebeu então que poderia voltar à indústria em papéis que não fossem estereotipados. E foi o que aconteceu.

Seu personagem Waymond Wang, de “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”, divide o protagonismo com a veterana Michelle Yeoh - veja só, atriz que estrelou “Podres de Rico” -, e que até faz parte do panteão de atores da Marvel, após ter atuado como a tia do protagonista em “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” e ter um papel menor em “Guardiões da Galáxia Vol. 2”. Citar a Marvel não é mero acaso, afinal, o multiverso que “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” apresenta também é uma realidade na Casa das Ideias desde o recente “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, e provavelmente ganhará ainda mais possibilidades nos próximos filmes da Marvel Studios.

No entanto, a dupla de diretores Daniel Scheinert e Daniel Kwan - os Daniels, como eles se nomeiam - não têm as mesmas amarras dos cineastas da Marvel, aqui, a dupla é livre para ousar e fazer o que bem entendem com as possibilidades do multiverso em um filme que não tem obrigações e nem ramificações com outras obras - apesar de brincar com algumas, como “Ratatouille”. E é delicioso testemunhar como os Daniels levam a sério o poder explorar tais possibilidades e capricham em nos apresentar realidades cada vez mais absurdas, de uma com pessoas com salsichas nos dedos a outra em que as pessoas são… rochas.

Em filmes de viagem no tempo, uma das regras mais estabelecidas pelos personagens é “não tente contatar seu outro eu, pode ser catastrófico”. Em “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”, o roteiro é inteligente ao não teletransportar os personagens fisicamente para lá e pra cá, isso é feito de outra forma, quase como uma Matrix, onde a mente da personagem é que viaja para outra versão dela mesma em busca de alguma habilidade que lhe será útil na realidade “oficial”. É como se o Neo acessasse uma outra versão de si na qual ele sabe karatê para lutar aquele karatê na realidade em que ele precisa da luta. Deu pra entender?

Isso fica engraçado com a Evelyn Wang de Michelle Yeoh, frágil, medrosa e indefesa, a personagem vai tomando conhecimento do multiverso aos trancos e barrancos. A princípio, ela desacredita, mas aos poucos vai percebendo que a coisa toda é caoticamente real. No meio de todo esse caos, os diretores aproveitam para brincar com os diferentes estilos e gêneros - e eles abusam das maiores bizarrices que você possa imaginar -, sem deixar de evidenciar que o que mais interessa à trama é aquela realidade em que Evelyn é infeliz como a esposa de Waymond, onde ambos são imigrantes chineses, donos de uma lavanderia e têm uma filha lésbica que constantemente entra em conflito com a mãe.

Essa coisa geracional é recorrente em “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”, e é exatamente esse aspecto que classifica o filme como um drama que passeia por gêneros ao invés de um filme multi gêneros. Explico. Ao final, fica bem claro qual é a ideia de “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”: um drama sobre os laços familiares, mas os Daniels não desperdiçam as possibilidades do cinema: fantasia, comédia, ação e até terror são desculpas deliciosas para nos tirar boas risadas. O filme vai transitando de gênero em gênero sem negar que, de fato, é um drama.

E é exatamente a partir de toda essa brincadeira que o filme se desprende durante grande parte de sua duração de qualquer tentativa de passar uma mensagem ao público, o que só vai acontecer no terceiro ato, quando as motivações do vilão ficam mais claras - e a única ressalva que faço é que o roteiro dá voltas demais para explicar o que já estava claro. Só que, diferentemente do que acontece no filme anterior da dupla, o estranho “Um Cadáver Para Sobreviver”, que carregava consigo aquela coisa de resgatar o amor pela vida, aqui, a mensagem faz muito mais sentido aos personagens do que para nós espectadores, por isso talvez canse um pouco.

Ao final, “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” não é um daqueles filmes que quer ser levado a sério, muito pelo contrário, os absurdos que se sucedem são claramente concebidos para fazer o espectador gargalhar na cadeira, na poltrona do cinema ou até mesmo no sofá de casa - afinal, a nossa janela de lançamentos não colabora. E mesmo no meio de tanta bagunça, ultrapassando o limite da razão por muitas vezes - se é que isso importa no cinema -, o filme ainda encontra seu momento drama, dentro e fora das telas, sendo um filme sobre família e também uma oportunidade para que atores outrora esquecidos ressurjam.


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