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Cinema / OLHAR ALÉM DO SEXO

Autora nacional de livros eróticos fala sobre sucesso de "365 Dias", grande destaque de 2020

Tatiana Amaral acredita que livros do gênero não trazem tantos pontos positivos para outros autores

Bruna Calazans Publicado em 25/12/2020, às 16h00

Autora brasileira fala sobre polêmico "365 Dias" - Reprodução/Netflix/Arquivo Pessoal
Autora brasileira fala sobre polêmico "365 Dias" - Reprodução/Netflix/Arquivo Pessoal

Desde o seu lançamento na Netflix, o longa polonês "365 Dias" angariou diversos fãs, mas também gerou muitos debates sobre a sua trama. Inspirado nos livros homônimos da autora Blanka Lipińska, a produção conta com tons de erotismo, sensualidade e polêmica e foi um dos grandes destaques de 2020.

No Brasil, o gênero também faz sucesso e garante uma trajetória sólida para autores nacionais, como é o caso da baiana Tatiana Amaral. Dona de um acervo completo de livros do gênero erótico, a escritora é uma das mais bem sucedidas do gênero em território nacional e acredita que livros como o de Lipińska e da inglesa E. L. James, criadora da saga "Cinquenta Tons de Cinza", não trazem tantos pontos positivos para outros autores.

"Quando olhamos para esses livros levando em conta apenas o sexo narrado, eu digo que talvez não, não seja um ponto positivo, como muitos defendem. O público para o erótico é pequeno e restrito e como escritores deveríamos mirar sempre algo além disso. Por isso eu sempre digo para olharem além do sexo nesses livros", explica Tatiana.

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Ela defende que o sexo descrito nessas obras não foi o responsável para que elas ganhassem tanta notoriedade, apesar de acreditar que as cenas sensuais funcionam "como um brinde, como algo que nos faz ter a ideia de estarmos cometendo um delicioso delito, e, é provável, que isso venda". O primeiro filme inspirado nos livros de E.L. James, por exemplo, estreou nos cinemas arrecadando mais de 571 milhões de dólares.

"Mas os dois livros, e todos os inúmeros que temos nesse gênero, trazem questões muito mais interessantes e que merecem ser abordadas. Acredito que 90% dos autores de romance erótico ou sensual, não escrevem pensando apenas no tanto de sexo que quer colocar na história. Existe algum tópico que está a frente do sexo, e que precisa ser abordado”.

Em suas próprias obras, Tatiana também vai além das cenas sensuais e fala sobre temas relevantes, como relacionamentos abusivos, violência doméstica e traumas. Para ela, é necessário ter cuidado em obras deste gênero para não levar um tom de romantização nesses assuntos: "O sexo passa, a história fica".

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No caso de "365 Dias", que está sendo alvo de críticas desde sua estreia, muitos espectadores acreditam que o filme vem fazendo exatamente isso: glamourização da cultura do estupro. Na narrativa, o protagonista Massimo (Michele Morrone) é completamente fissurado em Laura (Anna-Maria Sieklucka) e, para conquistá-la, decide sequestrá-la e fazer com que ela se apaixone por ele no prazo de 365 dias. Existe, inclusive, um movimento de internautas pedindo a exclusão do longa do catálogo da Netflix, o que já foi negado pela empresa.

Para Tatiana, a narrativa mostrada em "365 Dias" já é comum aos espectadores, a diferença é que em romances mais tradicionais o mocinho costuma ser um galã milionário, que tem atitudes abusivas justificadas pelo amor. "A diferença é que em '365 Dias' o mocinho é mafioso, sequestra a garota para que esta o ame. E lógico, não vou deixar de defender a ideia de que seja romantizar o abuso, porque verdadeiramente o é. Cabe ao leitor separar a ficção da realidade, isso é maturidade".

 

SOBRE TATIANA AMARAL 

Natural de Salvador, Bahia, Tatiana está no mercado literário há alguns anos e possui em sua carreira como autora sucessos de vendas, como as séries "O Professor", "O Diário de Miranda" e "Função CEO".

Durante a quarentena, após ter vencido a covid-19, a escritora acaba de lançar uma nova obra, intitulada "Por Mil Anos", que conta a trajetória de um casal tentando viver o amor. "É uma história de busca e reconhecimento, e claro, como um bom romance, cheio de drama".

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"Eu adoeci logo no início e minha recuperação foi lenta e complicada. Não apenas fisicamente, mas o psicológico fica muito abalado. Demorei um pouco mais de 45 dias para me sentir saudável outra vez, levando em consideração os dois pontos. Passei a repensar minha vida, a maneira como trabalhava e o que tinha estabelecido como desejo para 2020", explica a baiana sobre sua experiência com o coronavírus.

"Quando digeri a doença e entrei na etapa da gratidão, comecei a trabalhar melhor, seguindo outro ritmo e voltando a me divertir com todo o processo. Quando me dou conta de que estou escrevendo algo que me faz bem, a criatividade flui", relata a autora.